São Paulo, 14 de março de 2002

Aos Autores e Diretores da Novela “O Clone”

Vimos através desta, esclarecer alguns pontos conflitantes referentes à questão religiosa apresentados na novela “O Clone”.

Em primeiro lugar, é importante lembrar que Deus diz no Alcorão que homens e mulheres são iguais em deveres e obrigações:

"Quanto aos muçulmanos e às muçulmanas, aos fiéis e às fiéis, aos consagrados e às consagradas, aos verazes e às verazes, aos perseverantes e às perseverantes, aos humildes e às humildes, aos caritativos e às caritativas, aos jejuadores e às jejuadoras, aos recatados e às recatadas, aos que se recordam muito de Deus e às que se recordam d'Ele, saibam que Deus lhes tem destinado a indulgência e uma magnífica recompensa."
(33 Surata, versículo 35)

"As divorciadas aguardarão três menstruações e, se crêem em Deus e no Dia do Juízo Final, não deverão ocultar o que Deus criou em suas entranhas. E seus esposos têm mais direito de as readmitir, se desejarem a reconciliação, porque elas têm direitos equivalentes aos seus deveres, embora os homens tenham um grau sobre elas, porquanto Deus é Poderoso, Prudentíssimo."
(2 Surata, versículo 228)

O primeiro versículo é um dos inúmeros exemplos encontrados no Alcorão de que as mulheres possuem os mesmos direitos e deveres dos homens perante Deus e a sociedade, sendo que em outros versículos são citados alguns dos exemplos destes direitos, como o de não ser obrigada a trabalhar para se sustentar.

 O versículo seguinte é citado no Alcorão ao ser abordado o tema do divórcio, direito instituído pelo Islam sendo de direito tanto do homem quanto da mulher, já há 14 séculos atrás. Quando são citadas as menstruações é para acautelar-se a possibilidade de que esta mulher esteja grávida do marido e este se furte a obrigação de sustentar e reconhecer este filho; portanto já é mais uma garantia para a mulher. Em seguida é novamente especificado que as mulheres possuem direitos iguais aos dos homens.

 Na frase seguinte o Alcorão diz "embora os homens tenham um grau sobre elas". Deus não está falando de inteligência, nem de qualquer tipo de superioridade. Na religião islâmica, é do homem a responsabilidade de manutenção financeira do lar, mesmo que a mulher trabalhe.   Cabe  ao  homem
sustentá-la e o Alcorão está fazendo referência a responsabilidade de sustento da mulher.  O homem tem um grau a mais na responsabilidade, na obrigação. E para esta conquista, as mulheres do Islã não precisaram sair às ruas em passeata, nem se dizerem feministas. O dinheiro da mulher que trabalha é inteiramente dela. Uma sociedade feminista já há 14 séculos.

Em relação às liberdades individuais o Alcorão cita exemplos que demonstram que as mulheres do Islã tiveram seus direitos garantidos muito antes das mulheres ocidentais que ainda lutam por eles.  Por exemplo, já há 14 séculos a mulher muçulmana é OBRIGADA a adquirir conhecimento, pode pedir o divórcio, pode escolher o seu parceiro, pode ter independência de nome ao se casar, pode possuir riquezas suas e não tem obrigação de dividí-las ou gastar delas, possui direito a voto, possui direito a herança como filha, como esposa, como irmã, como mãe.

Algumas destas conquistas são restritas até hoje no Ocidente. A sociedade islâmica é obrigada a proteger a mulher desde o seu nascimento até a sua morte. Ela não é sequer obrigada a cozinhar, lavar, passar ou arrumar a casa. Este é um dever do marido muçulmano e isto está escrito na sunnah do Profeta.  Ela faz SE quiser.

O que se diz de alguns grupos que retiraram esses direitos das mulheres pode até ser verdade em alguns casos, mas são muito poucos. É preciso lembrar que somos 1 bilhão e 300 milhões de muçulmanos no mundo e  boa parte dos fiéis são mulheres. O aumento do número de adeptos se verifica sobretudo no Ocidente, em países da Europa e nos EUA. Seria como declarar que as mulheres desses países são loucas por trocarem os "direitos e liberdades" ocidentais pela "repressão islâmica".  No Brasil, 7 em cada 10 convertidos são mulheres. Se as leis islâmicas fossem repressoras, por que essas mulheres estariam se convertendo ?

Nos parece que alguns temas abordados na novela têm demonstrado ou um total desconhecimento da religião (o que não se justifica, uma vez que estamos, sheikh Ali e sheikh Jihad, sempre à disposição para sanar dúvidas) ou má fé. Vejamos:

1. Uso do Hijab (véu islâmico):

Quando uma mulher se decide por usar o hijab, o faz por fé e não por pressão social. A novela passa a impressão de que na primeira oportunidade, as muçulmanas o abandonam.

O véu está sendo mostrado como um símbolo repressor, o que é totalmente falso: Deus ordenou o uso do véu para todas as mulheres, não só para as muçulmanas. Isto pode ser verificado tanto no judaísmo quanto no cristianismo. Apenas nestas religiões, a ordem de Deus foi abandonada, enquanto no Islam é cumprida e respeitada.

Uma mulher pode e tem o direito de escolher se obedece a ordem de Deus ou não. Ela não deixará de ser muçulmana por não usá-lo, mas tem plena consciência de que está desobedecendo uma ordem de Deus, está pecando e será cobrada por este pecado no dia do juízo. Mas será cobrada e punida por Deus e não pelos homens.

O que foi mostrado na novela foi a ida de Sumaia à praia e a retirada do véu por pressão de sua prima. Uma mulher que tem convicção religiosa suficiente para colocar o véu, não cede a nenhum tipo de pressão social para retirá-lo.

O personagem Samira que se recusa a colocar o lenço, está sendo pressionado pelo pai para usá-lo. Este posicionamento familiar é anti-islâmico: ninguém tem o direito de forçar alguém a usar o véu. A família tem a obrigação de explicar o porque do uso, a ordem de Deus e as conseqüências do não cumprimento desta ordem. Não pode no entanto, obrigar a sua utilização. O hijab é uma questão de fé e a fé entre as pessoas não é igual.

O véu não pode ser retirado em festas, ou diante de pessoas com quem uma mulher possa contrair matrimônio. No caso de Jade e de outros personagens que usam o véu no dia à dia, não é lógica a sua retirada diante dos cunhados e conhecidos quando em suas casas. Quem usa o véu fora de casa é porque conhece o princípio de sua utilização e sabe que seu uso deve ser seguido dentro e fora de casa, quando existem estranhos presentes.

Quando existe convicção suficiente para usar o hijab, não se vacila no seu uso, pois é uma decisão interna da mulher.

2. Postura islâmica frente ao mundo Ocidental:

O personagem Zein, ao ser questionado por Muhammad sobre o fato de ser dono de uma boite, alega que um homem de negócios deve fazer determinadas concessões.

Islâmicamente falando, esta resposta é inadmissível: a religião islâmica proíbe a utilização de todo e qualquer valor, seja ele ocidental ou oriental, que venha a prejudicar ou levar qualquer sociedade islâmica ou não, qualquer pessoa, muçulmana ou não, ao prejuízo moral, financeiro, hereditário, de honra  ou qualquer outro que venha solapar a dignidade de qualquer um de seus membros. Podemos citar como exemplo a usura (cobrança e recebimento de juros), álcool, drogas, prostituição, etc.

Por exemplo, no Islam peca quem fabrica bebida alcoólica (empresa), quem distribui (distribuidor), quem faz a propaganda (modelos e publicitários) quem vende (dono do estabelecimento), quem serve (garçom) e quem bebe (consumidor). Todos são igualmente culpados e serão julgados por Deus pelo pecado do álcool.

Além disto, quem possui convicção religiosa, conhece formas de ganhar dinheiro honestamente, sem precisar cair em pecado. A religião não faz concessões para ninguém, por nenhum tipo de motivo.

 3. Visão materialista do casamento:

O personagem Khadija a todo momento utiliza a frase “…quero um marido bem bonito, bem rico e que me dê bastante ouro”.

O Islam é claro quanto à escolha do parceiro(a).

O Profeta Muhammad disse em relação à escolha da esposa: se o pretendente tiver uma boa educação e for religioso, que esta mulher se case com ele.

Quanto a escolha do esposo, diz o Profeta Muhammad que são quatro os ítens pelos quais um homem pode escolher uma mulher:

a) pela beleza;

b) pela riqueza;

c) pela posição social;

d) pela religiosidade.

Ele aconselhou que a escolha fosse pautada pelo quarto ítem, pois ele abrange o aspecto moral e de caráter. Não existe problema em que se leve em conta os outros aspectos, mas não se aconselha ao homem que sua escolha se baseie unicamente neles.

Tanto ao homem, quanto à mulher a religião incentiva a escolha baseada nos princípios morais e de caráter, nunca baseada apenas nas outras questões. O respeito, o amor e o sucesso de um bom relacionamento possuem como base a religiosidade e não os aspectos meramente materiais.

4.  A questão do casamento e do divórcio:

O casamento na religião  islâmica é um trato entre os cônjuges, que deve ser respeitado, pois é feito em nome de Deus e tudo que é feito em nome Dele é sagrado.

O sheikh presente à cerimônia reforça em seu sermão a importância deste laço, para que ambas as partes o respeitem e orienta o casal sobre os direitos e deveres de cada um, que também devem ser respeitados.

Quanto ao divórcio, tanto o homem quanto a mulher podem pedí-lo, desde que possuam motivos justos para fazê-lo. O casamento é encarado como uma questão séria e não se admitem brincadeiras neste assunto.

Ao casal são dadas três chances de entendimento e caso não se consiga fazê-los entrar em acordo, o divórcio é realizado.

Depois de divorciados, a mulher só volta a ser lícita para este homem  se, por livre e espontânea vontade se casar com uma segunda pessoa, sem a intenção de se divorciar e este casamento também vier a fracassar. Apenas depois do segundo divórcio dela, e caso haja interesse de ambas as partes, poderá haver um novo matrimônio com o primeiro marido.

É importante ressaltar que é proibido pela religião  casamento de um dia para que se cumpra a lei e a legitimidade de uma nova união do casal divorciado se faça. Além disto, é um costume pré-islâmico a contratação de um marido temporário. Isto deixou de existir com a vinda do Profeta Muhammad e o advento de sua mensagem.

Ninguém pode ser obrigado a se casar contra a vontade e a situação apresentada na novela, onde o personagem Jade se vê obrigada a casar tanto na primeira vez, com Said, quanto agora com Zein, não possui qualquer embasamento religioso e ao contrário, é PROIBIDO pela religião.

Existe ainda o problema da compra deste segundo marido que é inaceitável na religião, sendo que o ex-marido não possui direito ou acesso algum a esta mulher.

Outra situação inaceitável é a insistência de tio Abdo para uma segunda união de Muhammad. No capítulo do dia 12.03.2002, chegou-se ao cúmulo de sugerir que ele, Muhammad se case e não conte para a primeira esposa, insinuando-se que muitos homens mantém uma família em cada país.

Em primeiro lugar, é obrigatória a permissão da primeira esposa para uma segunda união. Caso ela não concorde e o marido insista, ela pode até mesmo pedir o divórcio por este motivo.

Em segundo lugar, a segunda esposa tem que concordar em ser a segunda, portanto, tem o direito de saber que existe uma primeira.

Em terceiro lugar, se o Islam  não admite qualquer tipo de dolo em qualquer aspecto da vida, como admitiria na questão do casamento que é tão importante ? É através do casamento que se constrói a família e como uma religião poderia admitir uma “enganação” na base de seus princípios, que é o lar de um indivíduo ? Tio Abdo está induzindo o sobrinho a ferir um dos princípios religiosos básicos: o respeito para com a família. Inadmissível dentro do Islam.   

5.  A questão das chibatadas:

A todo momento algum dos personagens faz referência às 80 chibatadas. Esta questão está sendo abordada de forma totalmente errada, uma vez que para que haja uma punição deste tipo, além das quatro testemunhas, é necessário que exista um governo islâmico atuando, onde existem e são aplicadas um conjunto de leis que possibilitam em qualquer situação, que uma pessoa não caia em erro.

A todo momento o tema é citado na novela, o que leva a uma banalização da palavra de Deus. Por exemplo, em capítulo da semana passada, a irmã de Ranya questiona Said sobre o fato dele ter dormido fora de casa, com a amante e o ameaça com a chibata. Ele responde perguntando se ela pode provar o que diz e afirma que se não puder, será ela que receberá as chibatadas. As leis extraídas da palavra de Deus devem ser respeitadas a todo momento e não se admitem  colocações como estas.

6. A questão do adultério:

O adultério é uma questão totalmente proibida dentro do Islam. A postura do personagem Said, que sendo muçulmano, está mantendo um relacionamento com Maysa, é reprovável. Não existe justificativa para tal comportamento da parte de um muçulmano e a atitude do personagem leva o público a imaginar que o Islam e os muçulmanos são um bando de hipócritas, que pregam uma coisa e fazem outra.

Quando o indivíduo possui religiosidade, sabe que será cobrado pelo seus atos e segue as ordens divinas por temer as conseqüências de suas más ações.

Se Said tem interesse em Maysa, que procure a abertura que a religião lhe dá, uma vez que possui condições financeiras para fazê-lo. Que aguarde a concretização do divórcio dela e, mediante a anuência das outras duas esposas, Jade e Ranya, se case com Maysa. Esta é a postura e o comportamento de um muçulmano. 

7. A utilização do Alcorão:

Verificamos que a todo momento o Alcorão é exposto como sendo uma brincadeira. Um não muçulmano não pode ter acesso a ele em árabe (que é o original), pois o mesmo se constitui na palavra de Deus e ela não é motivo de brincadeira.

Mencioná-lo a todo momento, em qualquer tipo de situação, é banalizá-lo e desrespeitá-lo. Não admitimos isto.

Além do mais, os versículos são mencionados e interpretados de forma errada, o que está levando o público a uma confusão em relação à religião e aos seus preceitos.

8. O desrespeito à figura feminina:

Já foi mostrado anteriormente que o Islam garante os direitos femininos e jamais uma mulher, seja ela muçulmana ou não muçulmana será “aprisionada” ou “sacrificada como um carneiro” pela religião.

As muçulmanas conhecem seus direitos e seu valor na sociedade e são respeitadas como membros importantes dela.

Quando passaram os últimos capítulos, mostrando muçulmanas como objeto, milhares delas, convertidas ao Islam e de origem muçulmana, reagiram às cenas apresentadas e nos enviaram e-mails ou entraram em contato diretamente conosco em nossos telefones particulares, mesmo altas horas da noite, para protestarem.

Questionarem sobre a falta de respeito demonstrado para com elas, chegando mesmo a se disporem a entrar em contato com a autora da novela para que Glória, com os próprios olhos, veja como vivem as muçulmanas, o respeito com o qual são tratadas, respeito este que elas só encontraram no Islam.

 

Atenciosamente,

Sheikh Ali M. Abdouni                 Sheikh Jihad H. Hammadeh

Presidente  da  WAMY               Vice-Presidente da  WAMY